la fée verte
Eu tinha ido à Paris passar umas férias, relaxar, e também porque eu sempre tive vontade de conhecer a cidade. Todos meus amigos que já haviam ido para lá falavam que os bares da cidade eram sensacionais, e que era de lei fazer uma visita a um deles. Como eu estava de férias, e queria afogar algumas mágoas, resolvi fazer uma visita às ruas badaladas da "Cidade Luz". Fui caminhando, só para observar os bares, antes de escolher um e começar minha noite, e nesse "safári", passei em frente de uma porta velha, com a madeira descascando, e um pouco a cima dela estava uma placa com "la fée verte" escrito. Não sei o por quê, mas aquilo me chamou muita a atenção, então respirei fundo, rezei para que o barman entendesse ao menos um pouco de inglês, pois meu francês era horrível, e entrei naquele pequeno bar, que parecia ser rejeitado por muitos.Quando entrei pela porta, fiquei um pouco abismado com o que vi: O lugar era um cubo, precisava de uma boa limpeza, e não tinha nenhuma mesa, só um banco de frente para o balcão do barman com uma luz fraca no teto. Me aproximei do balcão, um pouco sem graça, e antes que eu pudesse tentar pronunciar algumas palavras em inglês ou francês, o barman, me perguntou de forma clara e objetiva, em um português perfeito: "O que você gostaria de tomar, nesta noite tão gloriosa?". Na hora eu me lembrei de um amigo me contando da lenda sobre um pequeno bar em Paris, que guardava a galeria de um pintor chamado Henri Beauchamp, onde poucos conseguiam entrar, e menos ainda conseguiam sair. Comecei a lembrar das coisas que deveriam ser ditas ao misterioso barman, para conseguir sair vivo do lugar. Olhei em seus olhos e falei: "Absinto". Era a única resposta válida. Ele deu um leve sorriso, e me perguntou sobre o tipo que eu queria. Havia duas respostas válidas para essa pergunta, como eu só lembrava de uma, falei: "Aquele bom. O melhor de todos". Ele, então, me deu um copo perfeitamente detalhado, uma colher em forma de chave que possuía uma parte com eixo e outra sem, e a garrafa da bebida desejada. A garrafa era tão velha, que não se conseguia ler o rótulo. Comecei a preparar aquilo que podia ser minha última bebida, segundo as instruções de meu amigo: O eixo da colher deveria estar virado para baixo, cubo de açúcar em cima da colher, e derramar a bebida no copo, sem deixar cair uma gota. Assim que terminei de preparar o absinto, respirei fundo, tomei o copo em mãos, olhei para o barman, e falei: "Saúde". Tomei tudo em um só gole, e aquela luz fraca que estava ameaçando queimar, se apagou e o barman havia desaparecido. O lugar ficou em completa escuridão, e, segundo as instruções, eu deveria ficar calado até que algo acontecesse. Foi o que fiz, fiquei calado como um morto até que luzes verdes começaram a aparecer pelo bar, formando uma espécie de trilha. Com a colher-chave nas mãos, eu fui seguindo as luzes, que me levaram até uma porta daqueles elevadores antigos. Coloquei a chave na fechadura, e a girei no sentido horário. A porta fez um "clic". A porta se abriu, e dentro do elevador, estava a mulher mais linda que eu já havia visto, e que eu provavelmente iria ver, em toda a minha vida. Ela me olhou com aqueles olhos verdes maravilhosos e hipnotizantes e perguntou: "Vai subir, senhor?". Sua voz era tão linda quanto ela. Não consegui responder nada, só fiz que sim com a cabeça. As portas se fecharam, e o elevador começou a subir em grande velocidade. Enquanto subíamos, ela me perguntou "Como você compararia o surrealismo de Beauchamp ao de, podemos dizer, René Magritte?". Era mais um teste, onde minha resposta poderia ser tanto o meu carrasco, como o meu anjo protetor. Não me lembrava direito de como eu deveria responder aquela pergunta, então falei o que eu ACHAVA que era: "Eu vim para ver mais do que arte nesta noite.". Fechei os olhos esperando o pior, mas, graças a Deus e a minha memória estragada, nada aconteceu. Quando chegamos ao topo e as portas se abriram, eu já ia saindo quando, de repente, aquela mulher maravilhosa me puxou e me beijou na bochecha. Só com aquele beijo eu já podia morrer feliz. Saí do elevador e ouvi o som das portas se fechando atrás de mim. Respirei fundo, e segui em frente. Entrei em um salão da virada do século XIX, e bem na minha frente estava um pôster contando sobre a vida de Beauchamp, e ao lado havia uma porta. Depois de tudo o que eu passei, não achei má idéia ler um pouco sobre esse artista e sobre suas obras bizarras. Depois de ler, entrei pela porta. Do outro lado, estava as, como podemos dizer, "obras-primas" de Beauchamp, que ele pintou com o sangue e as entranhas de 3 jovens virgens que raptou e depois as esquartejou. Eram 13 pinturas, uma mais monstruosa que a outra. Algumas delas eram: O verdadeiro rosto de Jesus Cristo, a verdadeira forma de Deus, a verdadeira forma de Satã, entre outras. Os quadros estavam organizados em um corredor estreito, com 6 pinturas de cada lado, totalizando 12. A 13ª estava mais à frente, virada para a parede, e em seu verso estava escrito um aviso em três línguas diferentes: primeiro na língua dos Serafins, depois na língua dos demônios, e por último, em português objetivo e claro: "NÃO TOQUE.". Após ler o aviso, não me lembro de muita coisa. Acordei no meu quarto, achando que tudo havia sido um sonho, até o momento que fui até o espelho percebi que em meu pescoço, tinha uma marca, na forma das seguintes letras: "H.B".
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